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Especial
Música de Tom Zé ainda expressa o sentimento do paulistano

Depoimento
[ 25/01/2008 ]

"São, São Paulo, meu amor..."
por Bárbara Hartz

Hoje, São Paulo completa 454 anos. Poderia ser mais um aniversário, mas não é. Nos 30 anos em que moro aqui, fora um breve intervalo, eu nunca vi a cidade tão mobilizada para resolver os seus problemas. Perceber isto é um grande alento para pessoas como eu, que gostam da vitalidade da metrópole, mas sofrem com a queda da qualidade de vida, causada pelo trânsito, a violência, enchentes e entre outros tantos fatores. Assim, decidi abrir o coração e expor o que sinto, na tentativa de motivar novas pessoas a "pensar São Paulo".

O refrão da música de Tom Zé que escolhi como título e pontuei por minha conta e risco, “São, São Paulo meu amor...”, foi o que me veio à cabeça imediatamente ao pensar em escrever sobre São Paulo. Ganhadora do Festival da Record de MPB de 1968 (o quarto e último, segundo minhas fontes), a música e sua letra, que transcrevo abaixo, ainda hoje é o que a minha memória acessa em primeiro plano ao tentar descrever os meus sentimentos sobre a cidade. Sim, porque apesar de saber que isto aqui está longe de ser o local dos meus sonhos, não abro mão e repito com o artista que, apesar dos defeitos (ou por meu defeito?), a carrego no peito.

Sei que vocês vão dizer que tudo isto é uma bobagem, que sou eu que fiquei parada no tempo e não levo em consideração tudo o que já foi produzido musicalmente sobre São Paulo, de Premeditando o Breque, passando por Caetano Veloso, a Suba. Mas, acreditem, tenho os meus motivos para pensar como penso e não estou só: segundo a pesquisa Viver em São Paulo, realizada pelo Movimento Nossa São Paulo em parceria com o Ibope, a nota média de 6,7 dada pelos paulistanos à qualidade de vida, aliada a outros dados revela uma dubiedade da relação dos moradores com a cidade (http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/157). Recomendo também a leitura de um artigo de Washington Novaes em http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080125/not_imp114885,0.php ).

Enquanto isso, sem ter de retroceder um milímetro com os avanços tecnológicos a que tenho acesso, continuarei sonhando com o básico: calçadas sem ambulantes e grades nos locais de travessia de pedestres, verde e mais verde fresquinho à minha volta, grandes zonas em que é possível perceber o silêncio, poder voltar a caminhar à noite, como eu fazia quando fumava e faltava cigarro em busca do bar mais próximo aberto sem temer ser assaltada ou morta. E, claro, não ter de ouvir definitivamente mais ninguém poder usar o trânsito (ou o trânsito com a chuva) como desculpa para dizer que chegou atrasado em um encontro ou reunião. Faltou ainda não ter de sofrer com a lentidão do caminho que me leva a pegar um avião e com as tristes manchetes sobre gente que perde bens e até a vida para as enchentes ou o Tietê e o Pinheiros que ficam mais poluídos por causa delas.

Sem mais, transcrevo a letra da música de Tom Zé (http://www.tomze.com.br/pcd68.htm#1):


São São Paulo


São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor
São oito milhões de habitantes
De todo canto e nação
Que se agridem cortesmente
Correndo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor
São oito milhões de habitantes
Aglomerada solidão
Por mil chaminés e carros
Gaseados a prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor
Salvai-nos por caridade
Pecadoras invadiram
Todo o centro da cidade
Armadas de ruge e batom
Dando vivas ao bom humor
Num atentado contra o pudor
A família protegida
O palavrão reprimido
Um pregador que condena
Um festival por quinzena
porém com todo defeito
Te carrego no meu peito

São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor
Santo Antonio foi demitido
E os ministros de Cupido
Armados da eletrônica
Casam pela tevê
Crescem flores de concreto
Céu aberto ninguém vê
Em Brasília é veraneio
No Rio é banho de mar
O país todo de férias
E aqui é só trabalhar
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor

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