 |
| O jornal impresso: na UTI |
Imprensa e Web 2.0
[ 07/05/2009 ]
Para onde vai a indústria da informação?
por Paulo Eduardo Nogueira
A resposta a esta pergunta tem sido insistentemente procurada, diante dos avanços da Internet, que se tornou de massa e causa cada vez mais impacto no setor. Para continuar a contribuir com o debate sobre o tema, que vem se espalhando por todos os meios, publicamos mais um artigo da série "Imprensa e Web 2.0", escrito pelo jornalista especializado em Política Internacional Paulo Eduardo Nogueira.
“Onde será impresso o obituário da indústria de jornais?”, indaga sarcasticamente o comediante americano Stephen Colbert, que comanda o show Colbert Report, na Comedy Central.
A iminente morte do jornalismo impresso, também chamado de “velha imprensa”, é o assunto do dia nos Estados Unidos, justamente onde foi sempre vigoroso e hoje assiste ao fechamento de inúmeros veículos. E leva chutes de todos os lados. Uma das caneladas mais recentes - e doloridas - partiu do mega-super-hiper-investidor Warren Buffet, em recente festa que promoveu em Omaha para os acionistas de seus fundos. “Minha empresa não investiria na maioria dos jornais do país, por qualquer preço”, afirmou Buffet, justificando-se: “Os jornais podem sofrer prejuízos irrecuperáveis”.
Nos últimos meses, Buffet exibiu, porém, grande confiança em outros setores da economia, investindo pesadamente, por exemplo, no mercado financeiro. Mas acha que os jornais impressos estão cada dia menos essenciais aos leitores, sem perspectiva de reversão dessa tendência. Detalhe: o magnata faz parte do conselho diretivo do Washington Post, um dos mais prestigiosos do mundo.
A Internet é vilã preferencial na hora de se apontar os responsáveis pela agonia do jornalismo impresso. Mas erros se cometem do lado oposto. Em entrevista a Lúcia Guimarães, no Estado de S. Paulo do dia 3 de maio, Gay Talese, um dos criadores do New Journalism nos anos 60 e lenda viva da reportagem americana, ao lado de Tom Wolfe e Seymour Hersh, critica asperamente a decisão do New York Times de franquear seu conteúdo online. Diz Talese: “Acho que a nova geração que assumiu o jornal nos anos 90, no limiar da revolução tecnológica, amadureceu sob o impacto da tecnologia e fez um erro calculado de oferecer notícias de graça. A publicidade ia pagar por todo o custo de apurar notícias. A decisão foi feita num comitê corporativo, como se fosse um colégio de cardeais. Os executivos e os proprietários, os Sulzbergers, prestaram um desserviço a si mesmos e desvalorizaram um grande jornal ao concordar que o negócio era entregar tudo de graça. Eles arruinaram o próprio futuro quando foram incapazes de julgar de maneira adequada o que faziam”.
Para Talese, apurar a boa informação, a reportagem exclusiva, tem um custo alto e não pode se realizar “com bloggers inventando história em seus quartos”. O que fazer então? O grande repórter confessa não saber a receita, mas toca num ponto-chave: o papel fundamental que a imprensa desempenha.
Travado muitas vezes passionalmente, o debate sobre o fim dos jornais impressos se desvirtuou, sobretudo em certos setores da blogosfera, que confundem o fim do jornalismo de papel com o da imprensa em geral. Se o modelo de negócios da informação impressa parece fadado à extinção, isso não significa o fim da imprensa profissional e o triunfo dos bloggers de pijama. Na verdade, antes de serem antípodas, imprensa e Internet têm tudo a ver: a rede mundial de computadores possibilitou a circulação de informações como nunca antes vista. E a informação de qualidade ainda se obtém dos órgãos de imprensa que conquistaram credibilidade ao longo de décadas. A união dos dois consagra um avanço inédito na cultura humana.
Como resume Gay Talese, precisamos da imprensa “porque no prédio de qualquer redação de um jornal respeitável, a qualquer momento, há menos mentirosos por metro quadrado do que em qualquer outro prédio. Há mentirosos nos jornais também, mas em menor número. Nos prédios do governo, nas escolas, instituições científicas, estádios de esporte, nas fábricas, a mentira circula num grau mais alto. Os jornais estão mais interessados na verdade, mesmo se cometem erros, às vezes, erros involuntários. E se você ainda quer a verdade, é mais fácil chegar a ela por intermédio de um jornal do que em qualquer outra instituição. Os jornais ainda oferecem a melhor chance de manter a verdade em circulação”.
Leia esta matéria também na:
www.comunidadedainovacao.com.br
Leia outras matérias desta seção, clicando na caixa, abaixo.
|