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Inovação e sociedade
[ 28/06/2009 ]
Vai Michael, fica o legado inovador
por Bárbara Hartz
Exaustivamente coberta pelos meios de comunicação, a morte prematura do Rei do Pop evoca uma reflexão sobre o nosso tempo. Inovador de reconhecidíssimo sucesso na competitiva indústria artística, Michael Jackson aparentemente viveu frustrado e infeliz. Descontados os seus múltiplos talentos e capacidades de desenvolvê-los, tamanho contraste resulta de uma impiedosa realidade que o fez ceder ao vale-tudo pela fama. Se é que teve escolha... Mas, MJ não está em questão. Ocupará para sempre o trono de uma majestade. O que precisa ser avaliado é a história na qual ele viveu e ilustrou com as suas trilhas sonoras (Clique aqui para ler o artigo de Bárbara Hartz).
Qualquer estrela profissional ascende por uma combinação de fatores que envolve, entre outros, talentos, vontade própria, oportunidades. Ocorre algo parecido com os acidentes, a meu ver, e com Michael Jackson não foi diferente. Seus múltiplos talentos artísticos foram combinados com os organizativos, de produção, empresariais e de saber se manter na mídia para ser lembrado sempre. A sua família - o pai, em particular – teve um papel fundamental no sucesso de sua carreira (bem como na sua infelicidade, segundo relatos), ao lado da gravadora Motown que o lançou no mercado, Quincy Jones e outros tantos que apostaram nele.
Sabemos que as pessoas podem nascer com diversos talentos, mas precisam de um grande esforço e vontade para desenvolver plenamente um deles, quanto mais vários simultaneamente, de forma integrada e com qualidade como Jacko o fez com suas produções, composições, o canto, suas coreografias e todo o resto que envolveu a sua vida profissional. Na vanguarda de uma tendência ainda incipiente, ele foi um multidisciplinar, ou transdisciplinar, enriquecendo-nos com uma brilhante demonstração de que o ser humano é capaz de abraçar várias disciplinas e desenvolvê-las com sucesso.
Essa capacidade foi aliada à sua criatividade, permitindo diversas inovações na cultura musical. Entre elas, destacadamente uma batida musical síntese do rock, soul, funk e outros ritmos e a popularização da linguagem multimídia dos videoclips, que deu condições de escala para abrir um novo mercado promocional de música, antes apenas testado, por exemplo, por Elvis Presley e os Beatles, ainda que preciosamente.
Dos backing vocals gravados um a um por si mesmo ao passo de dança “moonwalk”, que simula um andar para trás, e o uso do software de fusão de rostos no clip Black and White, foram muitas as contribuições inovadoras do Rei do Pop ressaltadas por músicos e críticos após a morte. Mas não há necessidade de me estender sobre elas e o seu legado artístico, amplamente documentado e acessível publicamente.
O que acredito ser importante avaliar é um outro legado que eles nos deixa, composto por interrogações em busca da compreensão daquilo que o fez cercar-se de tanta infelicidade, descrita em inúmeras reportagens e colunas jornalísticas. “Ídolo das crianças e dos adolescentes que ele não pode ser, em sua glória e tragédia se misturam inocência e perversão, popularidade e prestígio, fragilidade emocional e maturidade artística”, escreveu sobre ele Nelson Motta no jornal “O Estado de S. Paulo”, de 27 de junho.
“Para minha geração e as que vieram depois, Michael Jackson é a trilha sonora de nossa história”, complementou o escritor e crítico de música. O trabalho desde a infância estimulado pela relação com o pai autoritário, o forte racismo ainda presente na sociedade americana nos anos 60 e 70, quando a sua carreira decolou, e a maciça presença de brancos entre as revelações musicais da sua gravadora, a Motown, são alguns aspectos dessa história. Conquistar a mídia por meio de atitudes extravagantes para manter-se sempre em evidência, um requisito de indústria cultural que vem se alastrando para outros segmentos profissionais, também é um lugar comum da época. Sem falar no ambiente extremamente competitivo, exaltado por uma ideologia individualista que se popularizou nos EUA e no Reino Unido a partir da década de 80, ganhando adeptos no mundo.
Nesse cenário, o vale-tudo para incrementar a carreira parece lógico, embora não defensável. Em Michael Jackson, foi acrescido de uma falta de limites, socialmente tolerada em artistas e agravada pela sua história pessoal, que o levou a alterar continuamente seu corpo em busca de um biotipo branco (ele negava, afirmando ter vitiligo) e da eterna juventude, a um consumo desenfreado, torrando milhões de dólares ganhos com vendas recordes de discos no rancho Neverland, tratamentos e outras extravagâncias. Tratou-se e foi tratado pelo mundo exterior como um recurso humano, rico como uma mina de preciosidades pelos seus talentos, e não como ser humano, com suas necessidades específicas.
O resultado traduz-se na imagem que deixou antes de morrer: nem negro, nem branco, nem adulto nem criança, nem homem nem mulher e mais um avatar do mundo virtual do que gente. Sacrificou, enfim, a própria identidade para conquistar o posto de realeza no mundo do Pop. Diante dela, destaca-se uma de múltiplas perguntas: todo esse sacrifício valeu a pena? Para a cultura humana, certamente, sim. Para Jacko, nunca saberemos a resposta.
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