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Opinião
[ 18/06/2010 ]
Inovação, mas nem tanto
por Paulo Eduardo Nogueira
O anúncio da criação da vida sintética feita em maio por Craig Venter impressionou o mundo e vem gerando uma acalorada discussão na imprensa e nas mídias sociais sobre as questões éticas ligadas ao fato. O editor da Scientific American do Brasil, Paulo Eduardo Nogueira, acha que ainda há um longo caminho até que o homem consiga desafiar Deus ou a Natureza.
Craig Venter, o milionário americano que se celebrizou ao criar um instituto de pesquisas genéticas cuja primeira façanha foi decodificar o genoma de seu proprietário, anos atrás, é um mestre em autopromoção. Em 20 de maio, anunciou com a devida fanfarra ter criado a vida sintética em laboratório. As manchetes no Brasil acompanharam o tom: “Criada vida artificial”, informou o Globo; “Ciência cria primeira célula sintética”, emendou a Folha. Na verdade, Venter deu apenas um passo – muito importante, sem dúvida – no processo de manipulação de vida que começou séculos atrás, desde que o homem começou a criar cães e patos.
A equipe de Venter sintetizou e modificou o DNA de um tipo de bactéria (Mycoplasma capricolum) e o inseriu em outra bactéria (Mycoplasma mycoides), cujo próprio DNA havia sido extraído. “Em essência, eles recriaram uma forma de vida existente em outra, com a diferença que deram a ela um genoma sintetizado em laboratório e inserido no citoplasma de uma espécie ligeiramente diferente”, observou à revista Science o editor da revista Artificial Life, Mark Bedau.
Nada daquilo que os filmes B de ficção científica costumam exibir: cientistas malucos que agitam substâncias e fazem nascer a vida a partir do zero. Para Bedau, cientistas nem chegaram perto de criar um organismo vivo a partir de materiais não-biológicos, sobretudo aqueles que devem ter existido na Terra há 4 bilhões de anos. A ciência ainda não sabe explicar como a vida começa e como materiais inanimados se tornam vivos. E, paradoxalmente, quanto mais se avança, mais percebemos o quão longe estamos das respostas.
Não se trata de desmerecer a conquista da equipe de Venter, mas colocá-la no contexto adequado. Foi um esforço hercúleo: 15 anos de trabalho, envolvendo 24 cientistas, a um custo de US$ 40 milhões. Eles já desenvolveram tecnologia capaz de sequenciar o genoma humano, de 3 bilhões de pares de bases (o da bactéria Mycoplasma mycoides tem “apenas” 1 bilhão de pares de bases), o que facilitou muito o sucesso da mais recente experiência.
Porém, antes de querer desafiar Deus ou qualquer outra forma da Criação, Venter está de olho nas patentes que podem advir de suas pesquisas – e que darão retorno à fortuna já investida. “Temos uma ampla gama de aplicações em mente”, explicou ele, como, por exemplo, gerar algas que absorvam dióxido de carbono e criem novos hidrocarbonetos, acelerar a fabricação de vacinas, além de produzir novas substâncias químicas, ingredientes para alimentos e métodos para limpeza de água.
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